Fred Amaral
Espaço pra cultivar o ócio.


Wednesday, November 04, 2009  

Entre Kill Bill II e o Copo de Cólera


Quinta à noite. Estava à toa zappeando na TV, à procura de um filme qualquer pra passar o tempo.
Passei pela Cultura e tive a sorte, pensava eu, de pegar um filme no começo. “Um copo de Cólera”. Filme nacional, com o casal de atores Alexandre Borges e Júlia Lemmertz. Nenhum outro ator era mencionado na introdução, afora a participação especial de Marieta Severo. Adaptação de obra literária de Raduan Nassar. Hum, filme nacional, adaptação de livro, só dois atores centrais... filme denso, pensei.

Pulei pra Globo, e dei de cara com a Uma Thurman, “A noiva”, empunhando uma espada com destreza. Kill Bil II. Tarantino. Trash cool. Diversão garantida. Já havia assistido ao filme, mas queria relembrar as cenas de luta e rever a Daryl Hannah fazendo aquele assobio que fica na cabeça.

Mas, como me considero um sujeito eclético e insisto em resgatar minha admiração pelo cinema mais intelectualizado, que o convívio com a rotina jurídica diária cuidou de minimizar, resolvi arriscar uns lances na produção nacional. Às vezes tenho essa mania de assistir a dois programas ou dois filmes ao mesmo tempo.
Voltei pra Cultura. O filme se inicia com um carro passando numa estradinha em área rural. Uns...dois minutos depois, outro carro passa! Ingmar Bergman virou brasileiro, pensei eu? O segundo carro começa a entrar na chácara. Mais pausa. Deu pane na TV? Pulei pra Globo de novo. Minha sensibilidade cinematográfica não é tão sensível assim, concluí.
Uma (a atriz) agora tentava demonstrar suas habilidades ao mestre chinês, que zombava de sua inexperiência e lhe dava uma bela de uma surra, no estilo da “luta de tigres” ou coisa parecida. Impossível tirar os olhos. Seguiu-se assim a seqüência de treinamento, até o momento em que Uma (ela de novo) emerge das profundezas da terra, usando suas habilidades assimiladas a duras penas com o mestre. Fui até o intervalo.
Voltei pro Cólera (o filme). Os atores estão no quarto. Fulano começa a desenrolar (isso mesmo) a roupa de Julia (não me perguntem o nome dos personagens). A atriz fica com seus vastos pêlos pubianos à mostra, sob os olhares e babas maníacas de seu marido. Hum, tipo peludinha, à moda antiga, pensei. Sexo à vista. Tá começando a ficar com cara de filme nacional.
Fulano acende um cigarro, enquanto sicrana vai terminar de se despir em outro cômodo. Fulano então tira a roupa, e aguarda ansioso seu “jantar”. Começa uma cena de amassos, meio idílica, em que o casal se beija sob as vestimentas de Julia. Não vai passar disso, pensei. Pimba pra Globo.
Nossa heroína loira agora se defronta com outra loira, Daryl Hannah, que já havia matado Budd, com sua cobra venenosa. Perdi o assobio! Tudo bem, o filme ainda promete. As matadoras se digladiam dentro de um trailer no deserto, até que a protagonista arranca o único olho que havia restado depois que Daryl ousou insultar o grande mestre chinês. Nossa noiva pisa descalça no belo olho azul acinzentado de Hannah, soltando umas gosminhas. Grande momento do cinema!
Intervalo. Volto pro Cólera. Opa! O bicho começou a pegar. Não, não é um Ingmar Bergman, definitivamente. Agora tá mais pra Buttman mesmo. Bem que a Silvia Saint podia fazer uma ponta, no lugar da Marieta Severo. Pode acreditar, meu chapa, se eles não estavam fornicando de verdade, eu sou o Batman. Segue-se assim uma looonga cena de plena putaria, essa é a palavra, com direito a contorcionismos orais dignos de um Cirque Du Soleil. E o fato de ser um casal casado de atores só torna a coisa mais palpável. E bota palpável.
Nunca prestei muita atenção nessa Julia. Tem muita atriz bonita na TV. Mas, confesso, depois daquela cena, a coisa mudou de figura.
Intervalo. Volto pro Kill. Nossa heroína prossegue na sua caminhada vingativa em busca de Bill e toma um susto ao ver sua filhinha crescida. Segue-se um diálogo metafórico com Bill sobre o papel simbólico e arquetípico do super-homem, mostrando que diversão também tem seu lado cabeça. Ok, to forçando a barra, mas que é legal é. Uma seqüência rápida de luta, e a noiva desfere um golpe letal em seu ex, o “golpe dos cinco pontos que explode o coração”, ou coisa parecida. Fenomenal! Nossa heroína pode descansar em paz, e eu, voltar pra putaria.
Cólera. Agora a palavra que dá nome ao título começa a fazer sentido. Fim do coito. Fulano vê um ninho de saúvas em sua chácara-refúgio, e começa a ficar doidinho. Aparentemente, a organização das formigas o atormenta Segue-se então uma discussão interminável entre os atores, com direito a mais algumas cenas lambidas e uns tapinhas na cara. A harmonia da cama pelo jeito não se estende pra fora dela.
O casal começa a t-r-a-n-s-c-r-e-v-e-r o livro de Raduan Nassar na tela, só pode ser, num diálogo inverossímil, como que num encontro entre dois filósofos discutindo sobre o sentido da vida. Volta e meia os personagens fazem um monólogo diante da câmera. É filme ou teatro? Tédio!
Amigos leitores cinéfilos de plantão. Não vi o filme inteiro (não consegui). Não li o livro que serve de base para o mesmo. Não duvido que haja robusta e refinada literatura no texto no qual, confesso, não prestei muita atenção. Mas, cá entre nós, transpor aqueles diálogos para a tela é um tanto fora de propósito, não acham? Injustiça, porém, não seja feita com os atores, que dão um baile de representação em Alexandre Frota.
E, por favor, não me condenem, não quero despertar a cólera de ninguém. Sou só um ser com sensibilidade artística limitada que não soube captar a beleza do filme. Eu diria, inclusive, aos que não tiveram a oportunidade, que assistam a “Um Copo de cólera”. Vocês poderão, num único filme, sentir o poder de mestres como Ingmar Bergman, Buttman e Lars Von Trier, no melhor estilo Dogville. Mas, que fique claro, o importante mesmo é que o bem venceu o mal e nossa heroína matou o Bill e foi viver em paz.

posted by Frederico | 16:43
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Tuesday, July 11, 2006  






O bom francês.

Assisti à final Itália X França com um certo desprendimento. Não era o Brasil que estava ali. Não morro de amores pelo povo francês e o refrão monocórdio "alle le bleus" entoado por sua torcida não ajuda muito. Quanto aos italianos, minha ascendência de 3º grau não é suficiente pra fazer-me sentir um legítimo carcamano.

Decidi, num primeiro momento, pender pro lado dos italianos, pois a festa seria mais emocionante. Veio o segundo tempo, e a França decididamente mostrava ser merecedora da vitória. Mudei de lado. Aí, de repente, acontece o lance que estarreceu o mundo: a cabeçada de Zidane. Parei de torcer. Fiquei confuso.

Por mais que não tenha brilhado na disputa, a visão de jogo e elegância do jogador francês faziam valer a partida. E, enquanto o carequinha dava seus passes precisos e decisivos, fiquei relembrando de suas atuações anteriores, sobretudo contra o Brasil. Ao contrário de outros tantos rivais, jamais senti em seu semblante uma expressão sequer de arrogância ou de desprezo pelo oponente. Ao final das partidas, cumprimentava o time adversário e batia palmas exaltando o espetáculo. Estava eu assim, matutando sobre a diplomacia de Zidane, aliada a seu talento inquestionável com a bola, quando a TV mostra a cena ...

A primeira coisa que me veio a mente foi aquela mordida que o Mike Tyson deu na orelha do Hollyfield. Tá bom, eu sei que o assunto não é boxe, mas o choque que me causou foi semelhante. Assim, do nada, o cara, que deveria usar os punhos, sai mordendo a orelha do oponente tal qual uma briga de cachorros. Contudo, o choque provocado pelo ato de Zidane foi bem maior. Afinal, de um sujeito como o Mike Tyson é até previsível uma atitude daquelas. Mas do Zidane...!

Fiquei com pena. Juro. Por tudo que disse, pela trajetória do jogador, sua maneira polida de lidar com os demais atletas, não tenho raiva de Zidane, nem teria se ele metesse 5 gols numa final contra o Brasil. Além do mais, nosso time perdeu merecidamente nas duas últimas disputas contra a França.

A grande questão: o que faz um sujeito aparentemente sereno descontrolar-se de tal forma a ponto de avançar como um animal sobre o adversário?

Dizem que um jogador experiente, que já ouviu certamente os piores insultos, que provavelmente já teve toda sua árvore genealógica profanada em campo no decorrer da profissão, jamais poderia perder a compostura, como fez Zidane. É um argumento razoável. Mas também é razoável que tenha perdido a cabeça, ou melhor, que tenha usado a cabeça, consideradas as circunstâncias.

Pude notar um certo princípio de choro no semblante de Zidane enquanto conversava com Buffon após o cartão vermelho. Foi triste. Enquanto assistia aos pênaltis, imaginei esse francês, destratado por seus pares que não o consideram um legítimo descendente de Napoleão, ali, sentado no vestiário, ensopo em lágrimas, assistindo à queda de seu time pela TV, imaginando como seria o dia seguinte, e a marca que aquele seu ato imprimiria em sua carreira. E tudo isso, por conta de um desaforo de um italiano folgado. O italiano foi reverenciado por sua malandragem. O francês virou vilão.

A festa italiana foi bonita. Não seria a mesma se o resultado fosse o inverso. Sinto por Zidane, não pelos franceses. Só espero que o povo francês, que se orgulha de ostentar o slogan liberdade, igualdade e fraternidade em sua Constituição, dê o devido valor a esse sujeito que lutou toda a vida contra a discriminação, e que cessou sua carreira de forma vexatória justamente por nunca tê-la aceito. Zidane pode ter passado a impressão de ser um sujeito bruto e destemperado. Mas algo me diz que, no seu íntimo, sabe que sua atitude foi condizente com uma pessoa que se orgulha e não tem vergonha de suas origens. Alle Zizou!

posted by Frederico | 14:05
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Monday, October 27, 2003  


Casamentos

Estou ansioso pra assistir ao último filme dos irmãos Cohen, com o galã George Clooney e a deslumbrante Catherine Zeta Jones. Clooney faz um advogado especializado em refrear os ímpetos golpistas de mulheres interesseiras, impedindo-as de concretizarem o golpe. Ironia bem conveniente aos tempos modernos.

Interessante notar que a própria Zeta Jones, ao casar-se com o ator Michel Douglas, assinou um acordo pelo qual se compromete a arcar com uma multa milionária caso venha a ser pega pulando a cerca. Tudo isso me leva a pensar na fragilidade dos casamentos. Afinal, o que leva duas pessoas a subirem num altar e se declararem amor eterno? Esta dúvida me intriga sempre que presencio um matrimônio.

E, por mais que reflita sobre o tema, chego sempre à mesma e inexorável conclusão. O casamento é, mais do que qualquer outra coisa, um mero contrato. Simples acordo de vontades a surtir efeitos na esfera civil. E contrato a prazo, ainda que indeterminado. Seu termo oscilará conforme o grau da paixão, doença que dura uns três anos no máximo, a situação econômica do casal, ou a chegada do jardineiro musculoso.

Sua debilidade já se mostra evidente na própria cerimônia. Afinal, todo aquele discurso sobre amar na alegria e na tristeza, de ser fiel, etc. e tal, é muito bonito, mas também muito frouxo. Nada muito digno de confiança. Primeiro, porque quem fala é praticamente o padre. Dos noivos, apenas é exigido um singelo aceito, coroado com o beijo. É quase que uma concordância tácita.

Por isso , já me decidi. Se um dia vier a casar, serei o responsável pelo discurso da noiva. Algo que venha realmente afiançar a convicção de sua escolha. O padre, como também todos os presentes, servirá apenas de testemunha.

Um discurso simples, algo como: Meu amor, estou aqui hoje enfeitada de branco porque descobri, ao longo de nosso relacionamento, que você, além de bonito e gostoso e admirável amante, tem a sensibilidade que falta à maioria dos mortais. Porque sei que nenhum outro homem, por mais parecido com o Brad Pitt, George Clooney ou Allan Delon, por mais inteligente, simpático e sedutor que seja, vai me despertar o mínimo interesse enquanto eu estiver ao seu lado. Porque não tenho dúvidas de que você, embora péssimo dançarino, é o único que me completa e me dá prazer.

Quero ver quem terá a cara de pau de dizer sim. E ainda que o diga ao final, será muito mais fácil identificar a farsa. Se ela hesitar na hora de pronunciar Brad Pitt ou suspirar na vez do George Clooney, meu amigo, esqueça!

O teste pré-nupcial é recomendável para quem quiser evitar surpresas desagradáveis, denunciando previamente incertezas ocultas. Quando sua namorada que se diz moderna e descolada começar a ter chiliques que a herança biológica explica, pressionando-o para o altar, faça-a ler o discurso e olhe bem nos seus olhos.

Ah, e antes que alguém pergunte, não esqueci nada não. O discurso é só pra ela mesmo...









posted by Frederico | 12:58
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Saturday, April 12, 2003  


Calvin, o grande!

Não sou nenhum fanático por HQ’s. Confesso, inclusive, certa ignorância. Mas nesse mundo em que pululam Mônicas e Mandrakes, há um representante de alto nível, que vai além das fantasias mirabolantes, de histórias insólitas, traçando um perfil psicológico denso do ser humano em seu estágio inicial, a infância, o que muitas vezes é obtido com uma simples charge. Bill Waterson merece todos os louros, afora os milhões que deve ter ganho com seu esplendoroso “Calvin”. Isto porque captou com maestria a essência das crianças, ao menos da criança que fui e da qual ainda restam vestígios, o que me parece suficiente para considerá-lo um ícone. Símbolo de uma geração de garotos assustados com a vida, vivendo num mundo fantasioso criado por si mesmos, como forma de autodefesa.

Não me diga que nunca leu Calvin, leitor! Se jamais teve interesse pela patota de Maurício de Souza ou pelos quadrinhos de Walt Disney, vá lá. Mas se as aventuras inesquecíveis de um garoto de seis anos e seu inseparável tigre Haroldo não lhe são familiares, ouso dizer então que perdeu uma grande oportunidade de tornar sua infância mais rica, no sentido abstrato da palavra. Há, contudo, como desfazer este pecado. Isto porque Calvin não é um gibi que agrade só às crianças. Não está, de modo algum, limitado pelas circunstâncias do tempo. Relendo-o recentemente na casa de um amigo, fui tomado por gargalhadas ininterruptas, como quando o lia anos atrás. Calvin é uma obra de arte, coisa pra ser digerida em qualquer época.

Medo, sensibilidade, fantasia, sarcasmo, irresponsabilidade, amizade, todas essas características permeiam a complexa relação do personagem com o mundo a seu redor. Calvin não tem nada de excepcional. É um garoto comum, atormentado pelas pequenas obrigações e desafios que a vida começa a lhe impor.

No seu relacionamento com tais desafios, encontra no amigo Haroldo o refúgio necessário. O bom e velho tigre é o companheiro solidário que compreende suas pequenas angústias. É a fuga para um mundo fantasioso frente à realidade incômoda, consubstanciada em personagens tais como a professora, o truculento Moe, a “tirânica” babá Rosalyn, ou os monstros debaixo da cama. Enfim, seres que facilmente têm relação com o cotidiano de qualquer criança de classe média.

É neste ambiente comum que Bill Waterson busca os instrumentos para delinear algo tão genial. Ao leitor desavisado, vale uma advertência. Cuidado! Não permitam tão prazerosa leitura a seus pequenos filhos sem antes atentar-lhes para algo óbvio, que às vezes as crianças precisam disto: o mundo fantasioso de Calvin tem limites e eles estão estritamente circunscritos aos quadrinhos. No mundo de mercado de hoje, meus caros, Calvin seria uma presa fácil e de nada serviriam seus mecanismos de fuga Haroldianos.

posted by Frederico | 11:55
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Friday, March 28, 2003  


As mulheres e seu "timing" (devaneios...)

A guerra no Oriente Médio, a miséria e subnutrição de povos subdesenvolvidos ou o desrespeito aos direitos humanos em países cuja legislação pouco difere de um código de Hamurabi são de fato problemas importantes. Mas gostaria de atentar o leitor para um assunto não menos relevante – o timing das mulheres.

No injusto jogo de seduções a que homens e mulheres se submetem diariamente, há sempre este lapso temporal a ser desvendado pelo homem. Digo injusto, pois não considero a histórica iniciativa masculina na condução do flerte algo natural e não vejo razão para não haver uma inversão de papéis. Há quem se refira às cantadas como algo prazeroso. Considero-as um mal necessário, sempre um empecilho, um caminho por vezes tortuoso a ser transposto.

Dirão alguns que os tempos mudaram, as mulheres saíram de casa, conquistaram sua independência, e hoje, donas de si, assumem o papel que seria naturalmente relegado aos homens, posicionando-se na condição de caçadoras. Bobagem. É bem verdade que elas podem lançar olhares insistentes, fazer comentários indiretos, simular trombadas ou elogiar efusivamente a cor de seus olhos. Mas não vão muito além. O ponto final meus caros, o golpe de misericórdia, sempre haverá de ser perpetrado pelo macho. Na sua condição passiva, as mulheres raramente ultrapassam a fronteira natural a ponto de arriscar um beijo, ou mesmo requisitá-lo. Ao homem caberá esta ingrata função, sob os riscos costumeiros da rejeição.

Não bastasse este papel empreendedor a que nós homens somos obrigados, o timing surge como um agravante. Em outros tempos, quando as mulheres podiam ser genericamente divididas em moças de família e mulheres da vida, havia um conhecimento prévio da duração do flerte. Às primeiras, moças recatadas, reservava-se uma conversa séria, com direito a exposição de títulos acadêmicos e conhecimentos gerais. Era o momento de mostrar atributos tais como simpatia, cultura e educação, com o intuito de satisfazer a dúvida da pretendida – Será que ele tem alguma coisa na cabeça? Já às segundas, tal “cozimento” não era necessário, tudo se resumindo a questões financeiras.

Hoje o timing revela-se um dos grandes mistérios a ser desvendado pelo homem. Cabe a ele sentir o momento mais propício para o ataque (usemos um termo de guerra, já que está em voga). Nesta árdua tarefa, um cálculo mal feito pode ser fatal, tal como nas incursões militares. Hamlet poderia ter dito: falar mais ou falar menos, eis a questão.

Muitas vezes uma graça qualquer é o suficiente para completar o ato. Mas há sempre mulheres à moda antiga – necessitam de um diálogo mais duradouro. Neste jogo de incertezas, o olhar se revela ao homem o indicador mais preciso. É ele o mais fiel instrumento a revelar o timing que se seguirá. Contudo, meus caros, nem mesmo este é de todo confiável. Sempre será possível se deparar com os olhares oblíquos e dissimulados de uma Capitu...

posted by Frederico | 15:32
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Monday, March 10, 2003  

Entre o caos e a calmaria

Àqueles quem me lêem, devo esclarecer que o longo período inativo deste blog se deve mais a obstáculos físicos do que a uma suposta preguiça de seu criador, se bem que esta não seja de todo nula. Optando por um carnaval tranqüilo, longe dos confetes e de orgias insanas, não pude contar com um meio de acesso a meu blog. Agora, já passado o tríduo momesco e a emenda que se seguiu até o final de semana, volto ao hábito salutar - penso eu -, que já se tornou um vício, de escrever publicamente.

Confesso, ainda, que mesmo em meio ao paraíso natural das praias do litoral norte paulistano, mesmo absorto pela atmosfera embalsamante da mata atlântica e ainda que sob o aconchego despreocupado de uma rede de balanço, tive saudades de meu computador e, particularmente, deste pequeno espaço cibernético.

Há de fato uma força revigorante no contato com a natureza e não foram poucos os autores que recorreram a paisagens bucólicas como fontes de alívio às almas irrequietas. Não é à toa que em todos os verões o ritual coletivo de descida ao litoral se repete, em que pesem os engarrafamentos e outros problemas de superlotação, numa tentativa desesperada de ver-se livre do corre-corre da cidade. Embora concorde em parte com esta crença, sou incapaz de me desfazer de alguns hábitos da urbanidade, e a tão propalada paz que adviria do simples contato com o vento límpido e a água fresca já não me surte o mesmo efeito após uma semana.

Certamentee não nasci para essa vida de Tarzan. Assim, entre corridas na praia ao pôr do sol e nadadas no mar, sempre me munia de revistas essenciais e do bom e velho Estadão. Contudo, embora estes me trouxessem notícias diárias da civilização, a falta de um bom cinema e de amigos de bom gosto faziam-se sentir à medida que o tempo escoava.

Antes que o leitor pondere que, tivesse eu uma Jane, tal qual o citado homem-macaco, me sentiria plenamente satisfeito, me antecipo a discordar. Nem mesmo uma Jane, personificada por uma... Luma de Oliveira?, bastaria pra me contentar com esta vida, digamos, selvagem. Não só porque a vida não se resume a sexo, mas sobretudo porque nem mesmo uma mulher de tal porte é capaz de abafar as necessidades espirituais de um homem concebido sob as vestes da cidade.

Também confesso uma certa aversão à crença dominante de que uma vida ideal se assemelharia à de um vadio, sem responsabilidades nem qualquer exercício intelectual. Se esta por vezes se faz necessária, decerto que não é a solução ideal. Acredito mesmo num equilíbrio entre o frenesi citadino e a calmaria litorânea ou campestre. Assim, antes que o crucial e prazeroso convívio com o ócio e a natureza se transformem em tédio, volto ao também indispensável caos de cada dia.








posted by Frederico | 01:08
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Wednesday, February 19, 2003  

Crítica: Deus é brasileiro

Quando li as críticas ao filme de Cacá Diegues, “Deus é brasileiro”, fiquei com um pé atrás. Havia ali muitas referências à pureza da nação brasileira, à capacidade do filme de mostrar um Brasil genuíno, etc., etc., o que mais parecia um discurso nacionalista, bem próprio destes tempos de euforia e esperança.

Algo me dizia que certos atributos, tais como as qualidades técnicas, a capacidade de provocar emoções nos espectadores ou a boa interpretação dos atores, imprescindíveis para a boa análise de qualquer filme, haviam sido preteridos em razão de um forte ufanismo. Senti aquela velha mania de idolatrar as coisas pelo simples fato de serem brasileiras e de falarem destas nossas características pretensamente singulares. Não sei se esta foi a intenção do diretor ou fruto da imaginação fértil da crítica, mas, de qualquer forma, vale a pena pensar a respeito.

Há uma inexplicável veneração pela tal “poética do atraso”, essa nostalgia por coisas toscas, por enaltecer nossa ignorância, nosso jeito errado de falar, esta necessidade de contrapor-se à modernidade dominante. Tudo que remete ao bucólico, ao “jeitinho” brasileiro, a clichês como nosso futebol-arte, samba, mulheres e nossa suposta simpatia inerente, parece servir de disfarce às precariedades não só dos filmes, como também de outras ramificações artísticas. Veneramos as coisas não porque sejam boas, mas porque são brasileiras. É o desejo de mostrarmo-nos ao mundo, termos orgulho do que somos, ainda que o façamos de forma tão precária. E quem assistiu ao filme, sabe do que estou falando.

Esta me parece ser a explicação mais plausível para o sucesso de um filme tão mediano. Que outra razão senão esta necessidade de acharmos beleza nas peculiaridades do atraso, como forma de nos distinguirmos do mundo? O filme me fez lembrar aquele conjunto musical, auto-denominado “tribalistas”, com suas letras juvenis e refrões fáceis, evocando uma tal “identidade nacional”, uma pureza original, ambos igualando-se na qualidade técnica, próprios para espíritos menos exigentes.

Esta tal pureza não me parece outra coisa que não desculpa para nossos vícios. Enaltecemos nossos defeitos frente à incapacidade de superá-los.

Não quero parecer radical, mas qual outra razão para tanto sucesso? Sinceramente, achei bobo. Desde o início, em cenas como a circense e tola surra de peixes voadores, até o final com pretensões sentimentais, o filme revelou-se de uma parvoíce imensa.

Se a idéia era fazer rir, ficou a anos luz de um “Auto da Compadecida”. Aliás, o personagem que serve de guia a “Deus” e que vem sendo muito elogiado, embora tenha lá seus bons momentos, por vezes resvala no caricato, o que não se veria em um Matheus Nathergale (?). Mas vamos dar um desconto ao ator novato. Tampouco gostei de Antônio Fagundes.

Se o filme tinha alguma pretensão de emocionar, ficou mais longe ainda. Está, de fato, muito aquém do lirismo de um “Abril Despedaçado” ou de um “Lavoura Arcaica”. Aliás, a simples comparação já é um ultraje.

Se a intenção é retratar o povo brasileiro como um todo, o erro extrapola os limites do cinema e atinge campos mais abrangentes, passando pela história sociológica do país. Achar que o que está sendo mostrado na tela resume o Brasil é uma ilusão que virou moda. Se dissermos que lá está de fato o nordestino, vá lá. Mas o Brasil não é o nordeste. É uma terra enorme com uma miscigenação extraordinária, formando um grande caldo em que cada componente tem uma personalidade própria. Não há como falar numa identidade cultural. Esta sem-cerimônia tão propalada pode ser vista no bahiano ou no carioca, mas não combina com os temperamentos mais frios e perfis sisudos dos sulistas. Neste contexto, um filme sobre os empresários e advogados engravatados na avenida paulista é tão brasileiro quanto qualquer outro.

Chega de análise. Não gostei do filme, mas respeito as opiniões divergentes. Só acho curiosa a exaltação desmedida que se deu ao mesmo. Ainda que fosse capaz de captar este fictício “espírito nacional”, se esta era sua real intenção, continuaria a ser fraco. Trata-se de um filme menor, que até pode ser assistido em uma sessão da tarde na t.v. aberta, na falta de algo mais atraente.

Se Deus é brasileiro ou não, deixemos à especulação de filósofos e metafísicos. De uma coisa, porém, estou certo: - o mau gosto tem andado forte por estas terras...

posted by Frederico | 22:01
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Wednesday, February 12, 2003  


O conquistador (devaneios...)

Juan era seu nome. Qualquer relação com o famoso conquistador da literatura espanhola não é mera coincidência. Desde que entrara na puberdade, estava fadado a ser um admirável sedutor. Começara cedo e, como quem nasce com um grande talento, tal como um Picasso ou um Mozart, não tivera professores. Juan era um auto-didata. Sua intimidade com o mundo feminino era algo natural, apenas aprimorada ao longo dos anos.

Nas cercanias da escola infantil onde estudara, deu seu primeiro beijo. Isto foi aos 9. Aos 11, teve sua primeira experiência sexual. Daí em diante não parou mais, tornando-se um verdadeiro expert na arte da conquista.

Vivia em constante estado de volúpia. Para ele, não havia lugar nem hora para as cantadas. Tal como um gavião, costumava espreitar os arredores, identificando os inúmeros corpos femininos que transitavam diante de seus olhos. Quando encontrava uma espécime de seu gosto, rapidamente dirigia-lhe a vista, de modo que seus olhares se entrecruzassem. Isto era crucial, uma olhada certeira era o início de tudo. A isto, seguia-se um sorriso, e o “trabalho” estava quase por completo. Para finalizar, geralmente uma observação, pueril que fosse, qualquer bobagem, algum gracejo, o importante era que se comunicassem.

Juan tinha vasta experiência com os variados tipos da fauna feminina. Sabia quando ser mais cauteloso e quando podia ser mais direto. Assim, ora fazia-se de intelectual, ora dava uma de surfista – pouca fala e ações concretas! E, embora não ignorasse a multiplicidade de personalidades femininas, sabia existir algo que todas admiravam em um homem: a confiança. Juan sabia como poucos o quão nociva era a insegurança de um homem para suas incursões amorosas. As mulheres, dizia ele, farejam o derrotismo à distância. Assim, embora não fosse exatamente um modelo de Giorgio Armanni, sabia se valer de suas qualidades e jamais dava ensejo para que pudessem, por um instante que fosse, achar que estava preocupado com suas imperfeições físicas ou intelectuais. Vivia assim em constante estado de graça e amava a si próprio com um fervor que por pouco não beirava o narcisismo.


Em se tratando de mulheres, não tinha quaisquer preconceitos. Loiras, ruivas, mulatas, asiáticas..., pouco importava, todas lhe interessavam. Cada qual tinha suas qualidades e ele sabia tirar proveito de cada uma delas. Também não tinha problemas com estilos – maluquinhas, patricinhas, punks, etc.-, circulando com facilidade por todas as tribos. Apenas exigia um mínimo de beleza e, às vezes (dependendo do seu “estado de espírito”), alguma inteligência. Contudo, embora fosse um astuto galanteador, não era tão bem sucedido quando se tratava de relações mais complexas. Juan se comparava a um velocista, especializado em casos passageiros. Quando, porém, era instado a percorrer as distâncias mais longas do universo amoroso, perdia fôlego. Passava então da superficialidade das relações efêmeras e adentrava nos mistérios da alma feminina. O que pretendiam afinal estas moças, quais eram seus sonhos, o que esperavam dos homens? Tais indagações não raro se revelavam inúteis. Ninguém sabe ao certo o que se passa na cabeça de uma mulher, esta é a única certeza que tinha.

Em que pese isto, Juan já namorara algumas dezenas de mulheres, de modo que começou a catalogá-las em uma grande planilha, onde não só constavam seus nomes como também suas virtudes e defeitos. E assim, por meio de uma matemática um tanto esdrúxula e obviamente fria, chegava ao que chamava de cmp (coeficiente da mulher perfeita). Quando tal coeficiente chegasse a um nível de excelência, dizia ele, entregaria-se então à vida monogâmica, a um estado de meditação profunda, abdicando de todas as demais mulheres. Sairia por completo da vida mundana, direcionando todo seu depósito de testosterona a uma única mulher e constituiria então uma família, à qual amaria intensamente.

Ocorre que, após muito procurar, Juan ainda está longe de achar um nível de perfeição que de fato lhe agrade e teme que não venha a encontrá-lo. No seu trato com o mulherio, pôde notar que elas, quando são muito inteligentes, geralmente são presunçosas e egocêntricas. Quando muito bonitas, são também narcisistas e incultas; quando não são workaholics, são dondocas mimadas em busca de quem lhes banque os luxos. E isto quando não são infiéis e mentirosas. Sem falar também na inconstância de sentimentos, que num instante revelavam paixão, para em seguida demonstrar indiferença.

De tanto lidar com as vicissitudes e contradições do universo feminino, Juan desistiu de encontrar a mulher ideal. E há muito desistiu de entendê-las também. Apagou sua planilha e, embora não tenha abandonado as mulheres, agora não busca mais a excelência. Juan vai agora atrás do que sempre foi: bumbuns durinhos e peitos volumosos, que ao menos estes podem ser perfeitos.


posted by Frederico | 11:34
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